A vida começa no canteiro de obras


“Estamos agradecidos à oportunidade que foi dada a todos nós. Sei que erramos, mas, como diz o projeto, nós queremos Começar de Novo e mostrar para a sociedade que não somos aquilo que as pessoas pensam e imaginam da gente”.

Foi com essa frase, pontilhada de emoção, que o apenado Francisco – orador da turma – agradeceu a oportunidade de aprender uma profissão no canteiro de obras da construtura Urbis, que está construindo o condomínio Vila Gaia (próximo à Colônia Japonesa), no bairro do Aleixo, Zona Norte de Manaus. Ele faz parte do grupo de alunos – todos cumprindo penas alternativas – que estão sendo ressocializados pelo projeto “Começar de Novo”, desenvolvido no Amazonas através de uma parceria entre o Conselho Nacional de Justiça e Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM).

Sob o sol causticante do verão amazônico, o testemunho de Francisco — o aprendiz de pedreiro — foi presenciado pelos desembargadores João Simões, presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, Sabino Marques, presidente do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Amazona; e pelas juízas Thelma de Verçosa Roessing, coordenadora do projeto e Anagali Bertazzo (membro do grupo), que na manhã desta sexta-feira (29 de julho), visitaram a turma de egressos do sistema carcerário que estão participando do Curso de Formação em Pedreiro do Programa Começar de Novo, realizado no canteiro de obras da construtora Urbis

Também participaram da cerimônia o vereador Luiz Alberto Carijó (autor da proposta que regulamentou o Começar de Novo como lei em Manaus), o secretário executivo adjunto da Sejus, coronel Bernardo Encarnação, membros do Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) e da Urbis Engenharia e Patrimônio Incorporadora.

O “Começar de Novo” é um programa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cujo objetivo é o de promover ações de reinserção social de presos, egressos do sistema carcerário e de cumpridores de medidas e penas alternativas. As ações previstas envolvem as áreas de educação, capacitação profissional e reinserção no mercado do trabalho. No Amazonas, o programa é operacionalizado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e integra o conjunto de ações do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Amazonas, presidido pelo desembargador Sabino Marques.

Ao fazer a saudação do grupo de apenados que participa do curso, o desembargador Sabino Marques disse que o projeto está trazendo para o centro da questão o ser humano. “Eu sempre digo, as mazelas que aconteceram devem ser deixadas de lado. É preciso caminhar em frente, citando oportunidades para esses seres que tiveram esse rápido desvio de conduta e precisam seguir com sua vida”.

O vereador Luiz Alberto Carijó citou que não haveria local mais adequado para a cerimônia do que um canteiro de obras. Segundo ele, o desembargador Sabino foi muito feliz quando disse que as mazelas podem acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso oferecer novas oportunidades para aqueles que erraram e estão pagando por seus erros.

— Nós temos que dar oportunidade para que essas pessoas tenham a capacidade de superar essas mazelas e se tornarem úteis para eles, para suas famílias, mas principalmente para a sociedade. E é isso que está sendo oportunizado nesse momento – afirmou o parlamentar, reforçando que são essas oportunidades que evitarão que essas pessoas reincidam no crime.

— Acima de tudo, a sociedade está dando essa oportunidade para que elas cresçam como seres humanos e possam ter a chance que às vezes a vida não dá, às vezes a vida não oportuniza – disse Carijó.

O desembargador presidente João Simões encerrou a solenidade dizendo que esse tipo de ação proporciona que o ser humano encontre-se consigo mesmo. “É nesse momento que nos questionamos sobre o por que de estarmos aqui? O que nós estamos fazendo?”Justificar

— Eu acho que hoje nós estamos fazendo o que há de melhor, porque quando o Tribunal de Justiça faz justiça, aplica pena ou a medida, ele está onde realmente esperamos. Mas hoje, no momento em que nós podemos devolver à sociedade essas pessoas bem melhores, como cidadãos por inteiro, estamos fazendo o que há de melhor –, disse Simões, lembrando que alguns dos participantes sairiam do canteiro de obras da Urbis com uma profissão e com um certificado na mão.

— E mais: alguns deles poderão trabalhar até mesmo nesta empresa, pois já existe um aceno para isso. Por isso, acredito que nós julgadores estamos fazendo o que há de melhor, que é aplicar a Justiça fazendo um cidadão muito melhor – disse João Simões.

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