EFEMÉRIDE
Dia da mentira: revista Veja
cai no conto de 1º de abril

3xEm 1983, a revista reproduziu reportagem inverídica da New Scientist.

O dia 1º de abril é conhecido como o “dia da mentira”, e teria surgido na França do século XVI. No Brasil, a efeméride começou a ser difundida em terras mineiras, por meio do periódico “A Mentira”, lançado em 1848 com a falsa notícia do falecimento de Dom Pedro.

Em diversos países, especialmente da Europa e nos EUA, a data é pretexto para pregar peças dos mais diferentes tipos há décadas. Uma dessas brincadeiras virou história séria em terras tupiniquins por meio da revista Veja.

“Descoberta”

Em 1983, a prestigiada publicação inglesa New Scientist divertiu os leitores com a história de um fruto híbrido produzido por cientistas da Universidade de Hamburgo, resultado da fusão das células de um boi com as de um tomateiro.

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E não é que a revista Veja engoliu a narrativa fantasiosa como verdade fosse? Na edição 764, de 27 de abril de 1983, a revista publicou a matéria “Fruto da carne”, divulgando a “descoberta” de dois biólogos, os quais teriam produzido o “boimate”. “A experiência dos pesquisadores alemães permite sonhar com um tomateiro do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate.” Veja na íntegra:

Fruto da carne

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Engenharia genética funde animal e vegetal

Familiarizados com as delicadas estruturas das células, os cientistas que trabalham com engenharia genética conseguem há quatro anos produzir microorganismos híbridos, originários de dois ou mais tipos distintos de células. O processo só funcionava, porém, para unir células de animais entre si ou de vegetais com outras células vegetais. Agora, num ousado avanço da biologia molecular, dois biólogos da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, fundiram pela primeira vez células animais com células vegetais – as de um tomateiro com as de um boi. Deu certo. Barry MacDonald e William Wimpey, que fizeram a experiência, obtiveram como resultado um tomateiro capaz de produzir frutos parecidos com tomates mas dotados de uma casca mais resistente e de uma polpa muito mais nutritiva. Os “boimates” têm 50% de proteína vegetal e 50% de proteína animal. No todo, seu valor protéico é quarenta vezes maior que o dos tomates comuns.

“Esses tomates híbridos têm um futuro promissor na alimentação de pessoas e animais”, diz MacDonald. “Basta produzi-los comercialmente a custos baixos.” Isso ainda é possível. A experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomateiro do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica. “Os biólogos alemães conseguiram alterar o curso da lei natural, que impede a reprodução de indivíduos de espécies diferentes”, diz Ricardo Brentane, engenheiro genético da Universidade de São Paulo. “Essa subversão é estimulante para todo pesquisador.”

Para chegar ao seu tomate especial, os dois cientistas valeram-se de uma nova técnica de fusão de núcleos de células que utiliza cloques elétricos e calor. Algumas células de tecidos de um tomateiro e de um boi foram imersas em um líquido gorduroso onde, através de um eletrodo, receberam choques elétricos intermitentes que duram apenas 1 bilionésimo de segundo cada um. Esses choques rasgam as membranas externas e dos núcleos celulares – sem, contudo, matar a célula – permitindo que eles se fundam mais tarde, depois de colocados num forno a 40º centígrados. Em seguida, as estruturas celulares resultantes da fusão, os hibridomas, são submergidas em um caldo nutritivo. Finalmente, os hibridomas brotam e se transformam em mudas de tomateiro modificadas e prontas para gerar um fruto que jamais existiu antes.”

Um ano depois do erro, em 1984, a Veja divulgou uma tímida errata: “A revista que tirara as informações da publicação inglesa New Scientist, caiu numa brincadeira de 1º de abril, época na qual a imprensa da Grã-Bretanha, por tradição, sempre inclui entre seus artigos uma ingênua mentira“.

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